A ERA DA PREOCUPAÇÃO

A Preocupação veio passar um tempo por aqui. Forcei a porta para ela não entrar, mas não adiantou muito. Invadiu minha casa com a sua mala cinza, jogou o guarda-chuva no chão e foi logo se apoderando do meu sofá.

De manhã ela sempre vai visitar outras vidas e conhecer outros tipos de verdes. Mas, à noite, quando fecho os olhos, ela se deita bem do meu lado e ainda rouba meu travesseiro. Toda vez que me sinto firme para me clonar e construir um exército para o meu coração, ela vem de fininho e sussurra: “você faz tudo errado”. Bem abusada essa Sra. Preocupação!

Não gosto muito de visitas que chegam sem avisar. Bom, depende. A Dona Paixão e o Sr. Equilíbrio são muito bem vindos sempre que resolvem aparecer. Quando chegam juntos, de surpresa, é só festa! E não me importo muito quando esses dois ficam um tempo sem dar as caras. Sinto falta, claro. Mas nunca tive medo de andar sozinha e nunca tive medo de gostar disso.

Com essa visita da Preocupação parei para repensar muitas certezas. Me surpreendi como quão boa ouvinte ela pode ser, com o tanto de ensinamento que pode deixar. Percebi que minha luta não é contra ela. Até rimos juntas! “Viva, sorria, enlouqueça, se irrite, cante, aja naturalmente”, ela disse. Achei que depois dessa conversa ela ia pegar sua mala e bater em outra porta bem longe da minha. Mas não. Continuou dentro da minha casa comendo até o meu brigadeiro.

Decidi dar uma volta. Saí de casa batendo o pé. Eu que não ia viver no mesmo lugar que ela!

Longe da Preocupação pude dormir tranquilamente ao escurecer. Até a Sra. Paixão resolveu dar um oi. Conversamos muito, trocamos conhecimento, cantamos e dançamos. Fomos felizes. Dei o meu coração mas depois mudei de ideia. Sim, tenho o direito de fazer isso! A Paixão se despediu e eu a deixei ir com a certeza de que volta – de surpresa – com outras conversas, outros conhecimentos, outras músicas e outras danças. Era a hora de voltar pra casa.

A Sra. Preocupação ainda estava lá, mas segurava a sua mala cinza em uma mão e o guarda-chuva na outra. Sem falar, ela se levantou e foi embora. Sorri. Agradeci. O tempo aqui é curto demais para me preocupar com a Preocupação. Deus sabe o que faz e quando faz.

Antes dela virar a esquina, gritei: “Ei, Preocupação, dá o fora!”. Ela riu. Um dia me visita de novo. Mas não tão cedo.

[Texto feito por mim, em maio de 2017, para a série BEYOND]

TODOROV

“Cabe a cada um descobrir: a era das respostas coletivas foi ultrapassada, mesmo que o indivíduo possa esperar que os outros, em torno dele, compreendam e compartilhem de sua escolha. Mas já se pode dizer que, para atingir essa beleza ou essa sabedoria, não é necessário escrever ou ler livros, pintar ou admirar quadros, assim como também não se devia orar a Deus ou se prostrar diante de ídolos, construir a cidade ideal ou combater seus inimigos. Pode-se fazê-lo contemplando o céu estrelado acima da sua cabeça ou a lei moral dentro do seu coração, desdobrando suas forças intelectuais ou se devotando a seus próximos, trabalhando em seu jardim ou construindo uma parede bem reta, preparando o jantar ou brincando com uma criança.”

Tzvetan Todorov

MULHERES DO JOÃO #02

Luana.
Filha.

A garota das cores.
Luana deixa um tipo de cor em cada pessoa que esbarra. Cores alegres, frias, brilhantes. Depende. Ela é como um labirinto e por mais que siga o baile sambando maravilhosamente, uma parte de sua cabecinha (e de seu coração) acabou sendo atingida pela ausência do pai. Trauma que refletiu em seu primeiro relacionamento. O jovenzinho disse que tentou entendê-la o máximo que pode. Até se tornar um peso. Ele era um peso pra ela ou os problemas dela eram pesados demais pra ele?
De qualquer forma, não dá pra jogar toda a culpa sobre uma só pessoa.
O pai ausente, a mãe superprotetora, a guerra interna de Luana por achar que sua obrigação era sorrir e acenar. Guerra que tomou seus pensamentos por muitos anos. Até o momento em que ela simplesmente descobriu que pode ser o que quiser. Tudo que tinha vivido foi reflexo do que as pessoas fizeram.
Quão interessante seria criar uma história diferente do que já conhecia?
Sem mais desculpas pelo o que não fez.
Era hora de se cuidar e ser a mulher da própria vida.

 

MULHERES DO JOÃO #01

Carolina.
Rainha da Califórnia.

Depois de ter passado um tempo tristonha e pensando na vida fria que não a pertencia, Carolina decidiu conhecer mais sobre si mesma. Baixou os álbuns After the Gold Rush [Neil Young] e Blue [Joni Mitchell] e meteu o pé de Los Angeles. Com seus fones de ouvido, partiu em uma jornada para o Oeste. Ela sabia que tinha alguma outra cor à sua espera.
Um sopro de ar fresco enquanto esperava pelo sol do novo começo.